A grande máquina
Março 6, 2008
O eu não existe
O solitário e triste
Assim o é
Por conta de outros
Que como ele
Inexistem…
Nas ruas do centro de Salvador
Deparo-me com um enxame de eus
A grande massa amorfa
Despersonalizadamente humana
Humanamente inviável…
Paro e observo por horas
O incessante vai e vem
De pessoas sem rosto
Milhares de rostos sem expressão
Toneladas de porcas
Parafusos
E rebimbocas da parafuseta.
Mente em branco
Março 6, 2008
Nada.
Zero.
Tudo espero
Do meu vazio interno…
Nas páginas em branco
Do meu caderno
Manco entre as linhas
Em meio a gritos inaudíveis
Nas entrelinhas, vazias,
Borbulham, invisíveis,
Minhas futuras poesias…
Assombrações
Março 6, 2008
Quando um fantasma bate à porta
Cabe a quem abrir
Recebê-lo de cara torta.
Dizer-lhe que não há porque vir
E que o melhor a fazer
É partir…
Seguir seu caminho de volta.
Obrigados, mas nem tanto
Março 5, 2008
- Esta crônica deve ser escrita! Esta crônica deve ser escrita! É pra hoje! É pra hoje! Tem que estar pronta em uma hora! Uma hora!
- Mas chefe, eu não est… – Corte incisivo:
- Cadê? Cadê? Já terminou o primeiro parágrafo?! Já terminou? Então não me enche!!! Vai escrever!
O errante e seu porto
Março 5, 2008
Equilibrado entre o meio e o fim
Trilhou sua vida por um fio
Enclausurado em noites escuras
Na ânsia do estopim
Cabeça cheia, peito vazio:
Revirando seu baú de amarguras…
Pobre poeta, palhaço, pierrô
Desejou tão pouco
E esse pouco lhe trouxe tanta dor…
Do coração, palpitou
A esperança pulsante
De uma alma que latejava autopiedade…
Pobre sonhador que almejava
Encontrar e viver o amor
Com branda intensidade…
Se sincero, não faria diferença
Um só buquê ou uma só flor
Pois o que queria, não tinha preço…
E seu apreço… não teria valor
Desfiguração do não ser
Março 5, 2008
A solidão faz prece
Rezo eu
Reza você
Rezam todos…
Sofre você
Choro eu
Por mim,
Por você
Por todos…
Todos tolos!
Sombras vagam por entre vales luminosos
Ofuscando lumes ociosos.
Luzes fugidias pairam
Acima das expectativas
Do mais nobre dos esperançosos,
Fora de alcance…
Cores desintegram-se, degeneram-se
Arco-íris, preto, branco, cinza
Cinzas…
Descoloração do não ser,
Nuance…
Na medula da selva de pedra
A flora só cresce
Quem padece
É a fauna
Que sofre
Quando o amor fenece
No coração da alma
No deserto individual de cada
Habitam sonhos desidratados
Ermos povoados, repletos
De uma falsa paz alcançada sem tratados
Acordos ou pactos
Cidades fantasmas
Retiros superlotados
Jardins de cactos
Intactos espinhos
Famílias, amigos, vizinhos…
Aos cacos
Medo
Março 2, 2008
Dúvidas e inseguranças pairam no ar
Como que apelando para nos mostrar
O quanto ainda somos humanos
E que, por mais que não queiramos,
Nossos medos estão a pairar:
No ar que respiramos
Na cama onde amamos
Pairando…
No ar…
Temerosos, relutamos
E nos negamos a sentir
Para especular o que está por vir
Só que o tempo não pára por medo
E corre contra si, desde cedo
Seja contra ou a favor do vento
O medo não pára no tempo…
Não teme o escuro, nem altura,
Derruba muros e amarga sussurros
Outrora bradados com brandura
Portanto: Não tema!
Apenas entenda
Que o medo paira na alma
De quem pára no tempo
Para prever tormentos
Em momentos de calma.
Amadurecimento
Março 2, 2008
Ao cair da primeira lágrima
Fui tomado por convulsões
Página após página
Implosões de tristeza
Sorriram em meu diafragma
Nas demais vezes que chorei
O pranto foi perdendo o sal…
Só me lembro que nem mais sei
O que é sofrer deveras:
Expectativas, quimeras
Conservantes naturais do mal…
Fartei-me das balelas frívolas
Do conteúdo escasso
Somos o micro no macro
Partículas…
Um divino fracasso
E ao tomar ciência disso
Minha consciência estourou
Espatifei-me aos cacos
Na frente de todos, mas ninguém notou
Afinal, quem tem algo com isso?
Ninguém nota os fracos
Ninguém olha os feios
Ou enxuga o pranto de quem chorou…
Sementes podres também vingam
Março 2, 2008
Minha mãe sempre dizia que os meninos preferiam as meninas mais recatadas, mais delicadas. Depois, quando eu já era uma adolescente, ela afirmava que os rapazes respeitavam apenas as moças de família; que brincavam de boneca, usavam saias e vestidos abaixo dos joelhos e casavam virgens.
Apenas uma pequena lista
Março 2, 2008
As impotências humanas das instituições públicas, privadas, pessoais e coletivas consagram-se mal permanente, atemporal e intransponível…
O crescente índice de criminalidade relatado constantemente por pesquisas, reportagens e, é claro, através de extensa, prolixa e incessante comunicação boca a boca…