A cor da indignação
Outubro 4, 2008
Estava indo para a casa da Mila, lá no Costa Azul, encontrar com Aline para irmos ao teatro, quando o silêncio do coletivo foi interrompido por uma voz grave e autoritária:
- Esta é uma operação de rotina da Polícia Militar da Bahia! Quero que todos os homens deste coletivo desçam para serem revistados!
Levantamos cabisbaixos, envergonhados, pois todos sabíamos do constrangimento que nos aguardava, dos procedimentos degradantes da polícia, que, com seu tratamento repressivo e método desumano, nivela cidadãos honestos e trabalhadores com criminosos e marginais. Dentro da sua imensa incapacidade operacional, todos são suspeitos até que se prove o contrário.
Eu estava sentado num banco da última fileira e fui o último a levantar. Segui em direção à porta da saída e, quando desci, fui interpelado pelo sargento que comandava a blitz: “O que é que você está fazendo aqui? Tá indo pra onde?”
- O senhor não mandou todos os homens descerem do ônibus? Então?…
- Não, você não precisa descer. Está liberado, pode voltar pro seu lugar.
Senti que algumas pessoas me olharam com raiva. Um imenso sentimento de injustiça tomou conta de todos: de mim, dos que não foram liberados e das mulheres que ficaram no coletivo.
Eu fiquei lá, paralisado, observando aquela cena desprezível e tentando digerir a situação enquanto um outro policial praguejava em tom arrogante aos demais passageiros que desceram: “Todos virados para o ônibus, com os braços esticados e as mãos abertas acima da cabeça!”
Ninguém esboçou o menor gesto de indignação ou contrariedade. Ninguém a não ser eu. Claro, pois reparei que, tirando algumas mulheres e o trocador, eu era a única pessoa de pele branca naquele ônibus. Os demais variavam entre negros e morenos, tinham a pele tingida pela cor do Brasil e pelo sol tropical da Bahia. Mas a revolta de todos não tinha cor…
Como é que eu poderia voltar para o ônibus, encarar as mulheres que ficaram, o motorista, o cobrador ou aqueles que estavam sendo tratados como suspeitos. Ah, não! Tamanho constrangimento seria insuportável… muito mais vergonhoso e humilhante que a revista. Juntei-me aos demais companheiros de viajem e assumi minha posição de incriminado ao lado deles.
O sargento pareceu não gostar muito da minha atitude e praguejou: “Ô galego!? Eu já não mandei você voltar pro ônibus?!”
Indignado, virei para ele e falei: “O senhor não mandou todos os homens descerem do ônibus? Ué… sou tão homem quanto qualquer um aqui!”
Ele ficou fulo: “Escuta aqui moleque, volte para o seu lugar agora!”
- Não volto! Só saio daqui depois que for revistado como todos os meus companheiros de viajem.
- Entra neste ônibus, a-go-ra, que eu estou mandando!
- Não entro não! Ou o senhor me revista também ou então vai ter que liberar todo mundo!
Ele disse que eu estava desacatando sua autoridade e obstruindo o exercício da lei, ao que retruquei com uma acusação de discriminação racial.
- Eu não sou racista! Eu também sou afro-descendente! – respondeu o policial em tom ofendido.
- Então por que eu fui o único dispensado da revista?
- Porque você não parece ser um criminoso.
- Por quê?
- Ora, porque… porque… é… ããã…. sei lá!
- Pois então, ou o senhor me revista; ou libera todo mundo; ou eu registro uma queixa de racismo contra o senhor e toda a sua guarnição!
- Pois bem. Sé é o que você quer…
Um por um, os passageiros foram apalpados, tiveram seus tornozelos chutados para que abrissem bem as pernas, seus rostos esfregados na lateral empoeirada do ônibus e seus brios maculados pela humilhação de serem tratados como possíveis criminosos em público.
Fui o último. Quando chegou minha vez, o sargento fez questão de revistar-me. Perguntou-me se eu queria tratamento especial. Retruquei-lhe que nem mais, nem menos, que não havia motivo para não empregar o mesmo tratamento dispensado aos demais, no que fui muito bem atendido, tendo sido, ao final, massageado com um belo pesco-tapa. “Vai lá, encrenqueiro, defensor dos fracos e oprimidos, tá liberado. Podem voltar aos seus lugares!”. Não ouvimos sequer um “Tenham uma boa tarde e obrigado por colaborarem com o trabalho da PM.”
Fui o último a entrar e, enquanto me dirigia ao meu lugar, todos os passageiros, homens e mulheres, me olhavam, com um quase sorriso no rosto, e balançavam a cabeça, num gesto de incentivo e parabenização. Reconheceram-me como um dos seus, afinal, eu era um dos seus…
A viajem prosseguiu e eu me sentei à janela. O cenário, caso olhasse apenas para a direita, era paradisíaco: um mar infinito que se estendia e derramava até onde minha vista cansava de procurar algo que não fosse azul… Que não fosse nem oceano, nem céu.
É realmente vergonhoso a ídole policial , em qualquer estado brasileiro , o racismo vem se extendendo ao longo dos anos , cada vez mais, geralmente mais empregados por policiais mesmo , que ao tentarem mostrar serviço , acabam estragando o dia de muita gente. e enquanto isso no momento do constragimento , um crime e realizado com sucesso!
Interessante sua iniciativa de fazer um blog Bruno , gostei da idéia e marcarei presença aqui!
tenho vontade de fazer um pra mim. mas não sei se vou atualizar muitas vezes , po quando vier ao rio não esquece de visitar o amigo ne!
abção
Atitude exemplar Buninho, acho que o mundo precisa de mais pessoas com esse tipo de atitude, do contrario as coisas só irão piorar a cada dia… sem contar que essa raça de policial agente já sabe como é, nada do que vem deles é surpresa mais!!!
Bruno,
Sem dúvida, foi uma atitude honrosa,digna, solidária e de respeito aos valores humanos.
Me sinto muito honrada e orgulhosa por ser sua mãe.
Que Deus te ilumine sempre
Continue assim, seus textos nos fazem refletir, crescer como pessoas e ao mesmo tempo viajar…
Bacana isso, amigo! O texto, a atitude, a convicção.
Um beijo!