O espelho e o reflexo

Março 13, 2008

 Aguardava pacientemente na fila a minha vez de ser atendido, pensando comigo mesmo como alguns dos artistas brasileiros que hoje estão por aí, fazendo sucesso nos meios de comunicação, já foram mais engajados. Mais verdadeiramente preocupados com a situação do país e com uma forma de contribuir para a transformação da realidade. E como essa preocupação transbordava naturalmente de suas obras, subvertendo suas gerações com idéias novas! Ousadas! A maneira como contaminavam o pensamento das gerações futuras…

É uma lástima que hoje em dia muitos desses artistas vivam às luzes dos holofotes de 10, 20, 30 anos atrás… Como desfrutam de uma genialidade cada vez mais desbastada, de uma imagem cada vez mais gasta pela máquina que a imprimiu e, posteriormente, consumiu completamente.

Os artistas novos que vêm surgindo parecem, também, estar preocupados somente em atender à demanda voraz da indústria cultural, tão social e politicamente descomprometida quanto eles.

Esperava, ainda, enquanto era devorado por meus pensamentos ideológicos, quando a caixa do supermercado falou em voz alta e excitada:

- Professora Marli! Quanto tempo!! Como vai a senhora?

A alegria da moça pareceu-me inexplicável perante a reação da mulher, que estava na minha frente e parecia ter lá seus 50 anos. A velha respondeu da forma mais apática possível:

- Estou indo.

A menina, que parecia não ter entendido que sua interlocutora não estava afim de muita conversa, insistiu em prosseguir com seu quase monólogo:

- Mas que pessimismo é esse pró? As coisas no Brasil nunca estiveram tão boas! Tem cada vez mais gente estudando e trabalhando, o número de analfabetos e de desempregados está diminuindo.

E tentou continuar: “Eu vi isso no jornal das oito, o país está evoluindo…”

E a menina continuou contrariando, com solicitude, é claro, o silêncio da velha, que era quebrado por uma ou outra resposta mecânica e esquiva.

Lembrei-me de algumas professoras chatas que tive na infância e na adolescência. Aquela senhora lembrava-me muito a maioria delas. Insuportável! Antipática! Essa mulher não poderia, nunca, exercer o papel de agente da educação! Ela estava sendo extremamente mal educada com sua ex-aluna!

Quando a menina fez uma pequena pausa em sua tagarelice, para respirar e retomar o assunto em seguida, a senhora gorda, enquanto colocava suas compras numa sacola, a interrompeu secamente:

- Minha filha, o Brasil está cada vez pior e, pelo andar da carruagem, não vai melhorar tão cedo.

Mas a mocinha era persistente, e tentou mais uma vez:

- Mas a senhora, como professora, deveria ser mais otimista. É preciso continuar acreditando que é possível mudar…

Outro corte da velha:

- Filhinha… acorda. Uma andorinha só não faz verão. Queria ver se você fosse professora e soubesse o estado em que se encontram as escolas públicas. Certamente não teria tantas esperanças.

Aí sim! Depois dessa cortada a menina do mercado se calou. Depois desse tiro à queima roupa ela beijou a lona. Nocaute! A rispidez, mais uma vez, venceu a simpatia.

A senhora pegou suas compras e foi embora, sem desejar boa tarde ou se despedir. Seguiu, carrancuda, o caminho de sua casa.

Bom, finalmente chegou a minha vez. A menina do caixa me cumprimentou com frieza, mostrando ter aprendido a lição que sua professora acabara de lhe ensinar. Passei minhas compras, paguei e fui embora, ainda pensando na falta de horizontes daquela mulher de meio século. Como era amarga…

Lembrei dos artistas brasileiros nos quais pensava antes. Os mais novos; incapazes de transformar o mundo ao redor, e os de mais velhos; que hoje se banham nas águas gloriosas do passado. Estes, podem perfeitamente ter sido colegas de classe da velha e cansada professora rabugenta. Os outros, provavelmente, seus alunos.

Uma Resposta para “O espelho e o reflexo”

  1. Aline Costa disse

    Estamos fadados a reproduzir os erros que tanto condenavamos de nossos “pais”!

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