Caminhava ainda preocupado com o acidente da noite passada. Acidente que podia dar em tragédia. Se não estivesse usando camisinha, de repente, agora não estaria tão preocupado, pois não teria vacilado. Mas mesmo tendo relações com uma única parceira, ainda que só transe com minha namorada é preciso me cuidar. Não que eu desconfie da Márcia. Não, muito pelo contrário, ela é quase perfeita e temos um relacionamento muito verdadeiro. É uma questão de consciência limpa, de fazer a coisa certa.
Ia remoendo meus pensamentos enquanto ela, me acompanhando sem nada dizer, ruminava os seus. Sua feição estava tão tranqüila… A impressão que deu era que ela não estava nem aí. De repente até quisesse ser mãe, vai saber o que se passava naquela cabeça.
Lembro-me que ontem, enquanto me mordia de preocupação, ela estava lá, na boa. Ainda me disse na maior naturalidade: “Deixa pra lá. Amanhã eu tomo uma pílula., É bom que agente pode repetir a dose sem se preocupar com nada.” Como assim sem se preocupar com nada?!
Quase não dormi. Lembro que a última vez que olhei pela janela, antes de apagar, estava começando a raiar o dia. Quando acordei, às 10:30, ela já estava acordada. Parecia já ter levantado há muito tempo. E tão disposta! Estava feliz! Estaria grávida, já? É incrível isso! Se fosse qualquer outra coisa eu demoraria muito mais para me lembrar. Pelo menos uns 30 minutos.
- Vamos à farmácia comprar a tal da pílula do dia seguinte? – foi a primeira coisa que lhe disse. Bom dia seria a última que me viria à cabeça naquele momento.
- Bom dia, amor!!!
Deveriam ter no mínimo umas três exclamações no seu bom dia. Há muito que não a via assim, tão acesa! Tão resplandecente! Ela só podia estar grávida!! Ou então, gostando da idéia. Só tinha uma explicação para isso: Ela queria ser mãe. A louca! Mãe, na situação em que vivemos?! Isso seria a morte. Aliás, pior que a morte! Muito pior! Depois da morte tudo estaria acabado, mas depois do nascimento da criança é que as preocupações da paternidade realmente começariam.
- Pára de brincadeira, amor. Eu quase não dormi esta noite. Vamos comprar aquela bendita pílula.
- Já tomei, ué!
- Como assim? Que horas?
- De manhãzinha, enquanto você babava no travesseiro.
- Márcia, você tá de sacanagem?!
- André, que conversa é essa?
- É que você tá tão feliz, tão elétrica, que a impressão que dá é a de que quer mesmo ficar grávida! Se for isso, se a possibilidade de ter um filho realmente te agrada, você pode estar mentindo para mim. Não ter tomado pílula nenhuma! Você tomou essa porra?
- Claro, André! Tá maluco?! Tá doido?! Tá achando que eu sou alguma inconseqüente? Que eu não sei que não temos condições de sustentar uma criança?! Nem de lhe dar atenção?!
- Sei lá. Você está tão animada e acordou cedo…
- Claro que não meu bem. Eu sou maluquinha, mas nem tanto. E eu te amo! Quero você todinho para mim. Detestaria ter que dividi-lo com uma criança, ainda que fosse minha.
Saímos de casa e fomos caminhar na praia. Eu preocupadíssimo, ela nem aí.
Vendo Márcia ao meu lado, senti que ela poderia vir a ser, possivelmente, a companheira de uma vida. Comecei a reconsiderar a possibilidade de termos um filho, ou filha. Fiquei imaginando o quanto ela ficaria bonita grávida, com o maior barrigão. Linda!
Quando cansamos fomos para a areia. Ela disse que estava se sentindo mal, meio enjoada. Dez minutos atrás essa declaração teria soado como uma bomba atômica em meus ouvidos, mas agora mais pareciam sinos, harpas e flautas. Era o primeiro “sintoma”. Meu moleque estava a caminho, era só aguardar nove meses e pronto, estaria entre nós.
- André, vai descer!
- Como assim? Já?! Não demoram nove meses?
- Minha menstruação! Estou sentindo que ela vai descer mais cedo! Ou então a pílula fez efeito, sei lá! Corre na farmácia e compra um pacote de absorventes pra mim, por favor.
Fui num pé e voltei noutro. Dei-lhe os absorventes, sentei ao seu lado. Em seguida, sentada mesmo, ela se contorceu toda colocou um sem que as poucas pessoas que estavam na praia percebessem nada. Parecia aliviada. Olhou pra mim, sorriu e disse: “Tá vendo? Você se preocupa à toa”, deitando no meu colo em seguida. Ficamos observando o mar, em silêncio. Uma lágrima percorreu-me a face. Controlada, tímida… Uma só.
É claro que eu não disse nada sobre ter mudado de opinião com relação ao lance de termos um filho, mas o fato era que essa mudança tinha ocorrido em mim e, agora, sentia como se meu filho tivesse morrido. Estava de luto. Um luto discreto. Privado. Contido em mim.
tu ta um poeteiro de mao cheia ein!
hehe
brincadeirinha!!!
ta show o seu blog!
Brunão! Me orgulho de te ter você por perto, de compartilhar momentos e idéias. Me orgulho de sua sensibilidade. Mergulho, me orgulho.
Desses textos que “crescem” ao longo da leitura. Confesso que gosto mais da sua produção em prosa que em verso, acho que você deveria investir seriamente também na publicação de crônicas e contos. Eis um novo talento. Beijão
Eu já tinha comentado contigo que a crônica está muito boa… Parabéns e continue investindo em literatura.
Você tem talento.
Pow garotinho, não sabia que escrevia tão bem assim!!!!
Seu blog esta simplesmente PERFEITO!!!! Amei essa crônica!!!
Parabéns!!!!!
Conservador mas interessante, o problema da natalidade indesejada é comum em nosso país. Mas as mulheres carregam esse fardo sozinhas na maioria das vezes, por isso não acredito nessa teoria de que a culpa seja cinquenta por cento do homem e cinquenta por cento da mulher, na minha opnião isso é irrelevante, as mulheres é que decidem tudo, inclisive se vão ter ou não, o bebê, portanto a responsabilidade é completamente delas, independente de quantos “Andrés” existam, que aliás é coisa rara.
Você conseguiu fazer com que eu pudesse penetrar na vida desse casal…imaginar situações…E poucas pessoas têm esse dom..Meus parabéns…òtima a sua crônica!!
Bruno,
Parabéns! Vc conseguiu tansmitir com muita propriedade o passo-a-passo de todo o complexo emocional que envolve uma gravidez indesejada. Adorei o desfecho…foi surpreendente!
Bravo!
Eloisa Albuquerque – Pedagoga e mãe do poeta
Parabéns pelo primeiro lugar no concurso de crônicas da Faculdade 2 de Julho. Essa crônica é excepcional! Você merece!
Camarada Bruno.
Ainda bem que mudou de opinião depois da “pilula do dia seguinte”. Hoje é muita responsabilidade colocar uma criança no mundo, principalmente no campo da educação. Primeiro cuide da sua educação ou melhor da sua formatura, depois tem todo tempo do mundo. A biblia diz que há tempo para tudo. A… não sei o que diz Marx sobre este assunto, por isso não coloquei.
J. Milton