Versos e lágrimas
Maio 13, 2008
Todo poeta é um sofredor. E não me refiro a este ou aquele determinado poeta. Estou generalizando, mesmo! Rotulando a classe e o gênero! Falo de todos e por todos os poetas e a poesia deveria chamar-se sofrimento - ou melhor, lástima.
Sofrimento e literatura, de maneira muito própria e distinta, se acompanham e entrelaçam com tanta personalidade, desenvoltura, individualismo e naturalidade, que dessa mistura pululam títulos imponentes, obras clássicas que gravaram na história os nomes de seus autores e a forma como viam o mundo em suas épocas. Muitos livros chegam a ser o retrato crítico e fiel de seus tempos e da evolução do pensamento humano.
Nem mesmo o humorista escapa à regra. Sim, agora, além de estigma, é regra! O sofrimento é a regra da literatura. Diria até mais: que o sofrimento é a regra da arte e da vida e da humanidade e até mesmo da felicidade, mas irei ater-me aos escritores – que já são muitos.
Até mesmo o gênero cômico traz, em sua essência, em sua substância, o sofrimento embutido em cada parágrafo, estrofe, linha, verso, ou palavra, pois a comédia tem como escopo provocar risadas e rir é uma necessidade nesse mundo cão, não uma virtude. Virtude é saber fazer rir! O humorista é o médico da alma, não somente um sofredor qualquer (como o seu público, por exemplo), a ele cabe a nobre função de, mesmo que momentaneamente, fazer com que as pessoas se esqueçam de suas vidas, de seus sofrimentos, de suas dores.
Pode-se, inclusive, ser contemplada a possibilidade de o comediante ser, dentre os demais escritores, o que menos padece no - e por causa do – mundo. Claro, ora! Ele atenua o peso da vida e faz com que os seres humanos substituam suas lágrimas por sorrisos, o que é compensatório e, provavelmente, termina por reduzir-lhe o sofrimento.
O que mais sofre sempre foi e sempre será o poeta.
O poeta, coitado, dificilmente consegue viver do seu trabalho, raramente é reconhecido em vida ou compreendido em seu tempo. Não é à toa que as idéias de grandes poetas do passado permaneceram atuais, mesmo muito tempo depois de versadas, às vezes décadas… Séculos. Criaturas à frente de seu tempo - estar à frente dos pensamentos vigentes sempre dói.
Até quando arranca risadas, o poema carrega em seus versos o deboche e o cinismo - traços da inconformidade gerada pelo sofrimento inerente a todos os seres humanos dotados de sensibilidade.
Não digo isso devido ao ostracismo ao qual a poesia foi condenada pelo mundo pós-moderno ou por conta do pouco valor dado ao gênero pelas pessoas e pela indústria cultural. Mas sim por saber e sentir que de todos os miseráveis e infelizes, de todos os grandes filhos da mãe que se arrastam por este imenso e injusto mundo de Deus, o poeta é o que mais dói. O que mais chora. Eu sei disso… Falo com conhecimento de causa.
Mar à vista
Abril 11, 2008
Nós…
Caminhamos a sós
Velejando a cinqüenta nós
Como caravelas de isopor
Vamos boiando em mar revolto
Vento no rosto, cabelo solto
Açoitando amores a todo vapor
Como sofremos por esporte…
Até o mais forte dos fortes se rende
Quando exposto ao holofote da solidão…
Ao vazio da falta de sorte…
Em todos os corpos, esse breu se acende
E deixa em cada um, a marca da sua mão
Nós…
Vasto coro sem voz
Entoando a balada algoz
.
.
Sarcástico
Abril 11, 2008
Todos temos
Nossos anjinhos
E diabinhos
Os meus?
Deixo que briguem
O tempo todo…
Nada pessoal
Março 14, 2008
O mundo é menor que o que se pensa
E as possibilidades
Maiores que as que se podem imaginar
Estamos confusos, em meio a uma névoa
Vasta e densa…
Sempre a um passo de nos desencontrar
Só que não precisamos
Estar retidos nesta barreira
Inabalável! Intransponível!
Podemos nadar contra a corredeira
Em direção ao inatingível…
Tudo o que quero é amar
Eu quero rotina
A ti, poesias como oferendas…
Amor… muito amor menina…
E nada mais é preciso
Por favor, compreendas
E se amor não for o bastante
Se for considerado pouco
É porque estás em más vivendas…
Foste tragada pelo mundo louco
E sendo assim:
Não me queiras…
Por gentileza:
Não me ofendas…
Caleidoscópio
Março 14, 2008
Esteja atento em sua caminhada
Pois o desvio está no meio do caminho
Cuidado com as companhias…
É bom, desde já
Mesmo quando acompanhado
Acostumar-se a ser sozinho
A cada passo, um buraco
Em cada buraco, o mundo…
O submundo entalado na garganta
De quem se engasga
Com a falta de alguma ausência
O moral declina… levanta…
A moral se rasga
Solidão:
Inexata ciência
Troque os olhos ao olhar a mesma coisa
Tire ao menos
Duas infinitas visões de algo
Pois olhos frios
No mármore, derretem
Os brios
Escorrem pelo ralo
E apagam a luz
De quem reluz
Visões
Que se invertem
(Este poema foi concebido em parceria com o amigo e irmão, Edson de Paula, o maior poeta que já conheci)
Chaves e fechaduras
Março 13, 2008
Somente através do sono, este revigorante descanso, será possível morrer e ressuscitar sem ter que prestar contas com Deus
Somente através da guerra, este nefasto instrumento da paz, será possível alcançar o fim do mundo antes do tempo previsto
Somente através da manutenção da fome, da proliferação da miséria e da ampliação do ignorantismo, estes grandes alicerces do conveniente subterfúgio sócio-político, será possível, aos ricos, gozar de luxo sem que haja muita concorrência
Somente através da arte, este mirabolante instrumento, será possível escarrar na cara do mundo e ser aplaudido
O espelho e o reflexo
Março 13, 2008
Aguardava pacientemente na fila a minha vez de ser atendido, pensando comigo mesmo como alguns dos artistas brasileiros que hoje estão por aí, fazendo sucesso nos meios de comunicação, já foram mais engajados. Mais verdadeiramente preocupados com a situação do país e com uma forma de contribuir para a transformação da realidade. E como essa preocupação transbordava naturalmente de suas obras, subvertendo suas gerações com idéias novas! Ousadas! A maneira como contaminavam o pensamento das gerações futuras…
É uma lástima que hoje em dia muitos desses artistas vivam às luzes dos holofotes de 10, 20, 30 anos atrás… Como desfrutam de uma genialidade cada vez mais desbastada, de uma imagem cada vez mais gasta pela máquina que a imprimiu e, posteriormente, consumiu completamente.
Os artistas novos que vêm surgindo parecem, também, estar preocupados somente em atender à demanda voraz da indústria cultural, tão social e politicamente descomprometida quanto eles.
Esperava, ainda, enquanto era devorado por meus pensamentos ideológicos, quando a caixa do supermercado falou em voz alta e excitada:
- Professora Marli! Quanto tempo!! Como vai a senhora?
A alegria da moça pareceu-me inexplicável perante a reação da mulher, que estava na minha frente e parecia ter lá seus 50 anos. A velha respondeu da forma mais apática possível:
- Estou indo.
A menina, que parecia não ter entendido que sua interlocutora não estava afim de muita conversa, insistiu em prosseguir com seu quase monólogo:
- Mas que pessimismo é esse pró? As coisas no Brasil nunca estiveram tão boas! Tem cada vez mais gente estudando e trabalhando, o número de analfabetos e de desempregados está diminuindo.
E tentou continuar: “Eu vi isso no jornal das oito, o país está evoluindo…”
E a menina continuou contrariando, com solicitude, é claro, o silêncio da velha, que era quebrado por uma ou outra resposta mecânica e esquiva.
Lembrei-me de algumas professoras chatas que tive na infância e na adolescência. Aquela senhora lembrava-me muito a maioria delas. Insuportável! Antipática! Essa mulher não poderia, nunca, exercer o papel de agente da educação! Ela estava sendo extremamente mal educada com sua ex-aluna!
Quando a menina fez uma pequena pausa em sua tagarelice, para respirar e retomar o assunto em seguida, a senhora gorda, enquanto colocava suas compras numa sacola, a interrompeu secamente:
- Minha filha, o Brasil está cada vez pior e, pelo andar da carruagem, não vai melhorar tão cedo.
Mas a mocinha era persistente, e tentou mais uma vez:
- Mas a senhora, como professora, deveria ser mais otimista. É preciso continuar acreditando que é possível mudar…
Outro corte da velha:
- Filhinha… acorda. Uma andorinha só não faz verão. Queria ver se você fosse professora e soubesse o estado em que se encontram as escolas públicas. Certamente não teria tantas esperanças.
Aí sim! Depois dessa cortada a menina do mercado se calou. Depois desse tiro à queima roupa ela beijou a lona. Nocaute! A rispidez, mais uma vez, venceu a simpatia.
A senhora pegou suas compras e foi embora, sem desejar boa tarde ou se despedir. Seguiu, carrancuda, o caminho de sua casa.
Bom, finalmente chegou a minha vez. A menina do caixa me cumprimentou com frieza, mostrando ter aprendido a lição que sua professora acabara de lhe ensinar. Passei minhas compras, paguei e fui embora, ainda pensando na falta de horizontes daquela mulher de meio século. Como era amarga…
Lembrei dos artistas brasileiros nos quais pensava antes. Os mais novos; incapazes de transformar o mundo ao redor, e os de mais velhos; que hoje se banham nas águas gloriosas do passado. Estes, podem perfeitamente ter sido colegas de classe da velha e cansada professora rabugenta. Os outros, provavelmente, seus alunos.
Caminhava ainda preocupado com o acidente da noite passada. Acidente que podia dar em tragédia. Se não estivesse usando camisinha, de repente, agora não estaria tão preocupado, pois não teria vacilado. Mas mesmo tendo relações com uma única parceira, ainda que só transe com minha namorada é preciso me cuidar. Não que eu desconfie da Márcia. Não, muito pelo contrário, ela é quase perfeita e temos um relacionamento muito verdadeiro. É uma questão de consciência limpa, de fazer a coisa certa.
Ia remoendo meus pensamentos enquanto ela, me acompanhando sem nada dizer, ruminava os seus. Sua feição estava tão tranqüila… A impressão que deu era que ela não estava nem aí. De repente até quisesse ser mãe, vai saber o que se passava naquela cabeça.
Lembro-me que ontem, enquanto me mordia de preocupação, ela estava lá, na boa. Ainda me disse na maior naturalidade: “Deixa pra lá. Amanhã eu tomo uma pílula., É bom que agente pode repetir a dose sem se preocupar com nada.” Como assim sem se preocupar com nada?!
Quase não dormi. Lembro que a última vez que olhei pela janela, antes de apagar, estava começando a raiar o dia. Quando acordei, às 10:30, ela já estava acordada. Parecia já ter levantado há muito tempo. E tão disposta! Estava feliz! Estaria grávida, já? É incrível isso! Se fosse qualquer outra coisa eu demoraria muito mais para me lembrar. Pelo menos uns 30 minutos.
- Vamos à farmácia comprar a tal da pílula do dia seguinte? - foi a primeira coisa que lhe disse. Bom dia seria a última que me viria à cabeça naquele momento.
- Bom dia, amor!!!
Deveriam ter no mínimo umas três exclamações no seu bom dia. Há muito que não a via assim, tão acesa! Tão resplandecente! Ela só podia estar grávida!! Ou então, gostando da idéia. Só tinha uma explicação para isso: Ela queria ser mãe. A louca! Mãe, na situação em que vivemos?! Isso seria a morte. Aliás, pior que a morte! Muito pior! Depois da morte tudo estaria acabado, mas depois do nascimento da criança é que as preocupações da paternidade realmente começariam.
- Pára de brincadeira, amor. Eu quase não dormi esta noite. Vamos comprar aquela bendita pílula.
- Já tomei, ué!
- Como assim? Que horas?
- De manhãzinha, enquanto você babava no travesseiro.
- Márcia, você tá de sacanagem?!
- André, que conversa é essa?
- É que você tá tão feliz, tão elétrica, que a impressão que dá é a de que quer mesmo ficar grávida! Se for isso, se a possibilidade de ter um filho realmente te agrada, você pode estar mentindo para mim. Não ter tomado pílula nenhuma! Você tomou essa porra?
- Claro, André! Tá maluco?! Tá doido?! Tá achando que eu sou alguma inconseqüente? Que eu não sei que não temos condições de sustentar uma criança?! Nem de lhe dar atenção?!
- Sei lá. Você está tão animada e acordou cedo…
- Claro que não meu bem. Eu sou maluquinha, mas nem tanto. E eu te amo! Quero você todinho para mim. Detestaria ter que dividi-lo com uma criança, ainda que fosse minha.
Saímos de casa e fomos caminhar na praia. Eu preocupadíssimo, ela nem aí.
Vendo Márcia ao meu lado, senti que ela poderia vir a ser, possivelmente, a companheira de uma vida. Comecei a reconsiderar a possibilidade de termos um filho, ou filha. Fiquei imaginando o quanto ela ficaria bonita grávida, com o maior barrigão. Linda!
Quando cansamos fomos para a areia. Ela disse que estava se sentindo mal, meio enjoada. Dez minutos atrás essa declaração teria soado como uma bomba atômica em meus ouvidos, mas agora mais pareciam sinos, harpas e flautas. Era o primeiro “sintoma”. Meu moleque estava a caminho, era só aguardar nove meses e pronto, estaria entre nós.
- André, vai descer!
- Como assim? Já?! Não demoram nove meses?
- Minha menstruação! Estou sentindo que ela vai descer mais cedo! Ou então a pílula fez efeito, sei lá! Corre na farmácia e compra um pacote de absorventes pra mim, por favor.
Fui num pé e voltei noutro. Dei-lhe os absorventes, sentei ao seu lado. Em seguida, sentada mesmo, ela se contorceu toda colocou um sem que as poucas pessoas que estavam na praia percebessem nada. Parecia aliviada. Olhou pra mim, sorriu e disse: “Tá vendo? Você se preocupa à toa”, deitando no meu colo em seguida. Ficamos observando o mar, em silêncio. Uma lágrima percorreu-me a face. Controlada, tímida… Uma só.
É claro que eu não disse nada sobre ter mudado de opinião com relação ao lance de termos um filho, mas o fato era que essa mudança tinha ocorrido em mim e, agora, sentia como se meu filho tivesse morrido. Estava de luto. Um luto discreto. Privado. Contido em mim.
A grande máquina
Março 6, 2008
O eu não existe
O solitário e triste
Assim o é
Por conta de outros
Que como ele
Inexistem…
Nas ruas do centro de Salvador
Deparo-me com um enxame de eus
A grande massa amorfa
Despersonalizadamente humana
Humanamente inviável…
Paro e observo por horas
O incessante vai e vem
De pessoas sem rosto
Milhares de rostos sem expressão
Toneladas de porcas
Parafusos
E rebimbocas da parafuseta.
Mente em branco
Março 6, 2008
Nada.
Zero.
Tudo espero
Do meu vazio interno…
Nas páginas em branco
Do meu caderno
Manco entre as linhas
Em meio a gritos inaudíveis
Nas entrelinhas, vazias,
Borbulham, invisíveis,
Minhas futuras poesias…